Por Mark Jarman com contribuições de Vinícius Guimarães, Vitor Mondo, Janaina Tanure e Lucas Lima.
Ronaldo. R9, não R7. O melhor jogador brasileiro da minha geração, e provavelmente ainda subestimado pelo que ele realmente foi. Instinto puro, uma movimentação que fazia os defensores parecerem parados.
Depois houve a chegada de Juninho ao Middlesbrough em 1996. Um brasileiro no nordeste da Inglaterra, driblando adversários que não tinham ideia do que estava por vir. Muita gente neste país realmente despertou para o futebol brasileiro por causa dele.
Cinco Copas do Mundo. A nação mais vitoriosa da história do futebol. E, ainda assim, nenhum título desde 2002. Mais de vinte anos com uma seleção que, no papel, deveria estar ganhando torneios, mas que, de alguma forma, não consegue.
A agricultura brasileira carrega essa mesma sensação. O talento não está em questão. A escala não está em questão. A pergunta é se tudo ao seu redor está finalmente alinhado para entregar aquilo de que sempre foi capaz.
Uma das formas de saber se alguém realmente conhece a América Latina é perguntar sobre o Brasil. Quem conhece bem faz uma pausa antes de responder. Quem não conhece geralmente começa a falar de São Paulo imediatamente, muitas vezes sobre uma conferência da qual participou ou um hub de tecnologia que visitou por três dias.
São Paulo é extraordinária. Mas também não é o Brasil, da mesma forma que Londres não é a Inglaterra, com a diferença de que a distância entre São Paulo e a realidade da agricultura brasileira é consideravelmente maior do que qualquer viagem de carro saindo de Heathrow.
Quando acho que estou começando a entender este país, ele me mostra uma versão que eu ainda não tinha visto.
O momento em que mais penso quando penso no Brasil não aconteceu em uma sala de conferências. Foi em uma fazenda no interior de Minas Gerais, onde meu amigo Vinicius, da Embrapa , me levou para conhecer um amigo dele que estava construindo algo do zero em uma pequena operação de cachaça.
Corremos atrás de galinhas. Colhemos laranjas direto do pé. Dirigi meu primeiro trator. Naquela noite, a cidade local realizou uma festa, e fomos ajudar a vender produtos caseiros em uma barraca. Eu era o único estrangeiro ali, e o calor humano daquele momento ficou comigo desde então. É uma versão do Brasil que não aparece nos relatórios de investimento.
Depois, em dezembro de 2023, minha grande amiga Janaína, da Embrapa, organizou uma visita a uma usina de cana-de-açúcar no estado de São Paulo. Eu já havia visitado instalações de processamento de beterraba açucareira no Reino Unido e achava que tinha uma noção razoável do que era uma operação industrial de processamento.
Eu não tinha. O volume de cana sendo processado, os sistemas logísticos acompanhando cada etapa da produção, o som imponente de tudo aquilo, tudo em uma escala que diminuía qualquer coisa que eu já tivesse visto antes. Não é possível entender a agricultura brasileira até estar dentro dela.
É isso que os relatórios comerciais tendem a não captar. O Brasil não é um único mercado. Nossa pesquisa identificou quatro ecossistemas produtivos distintos: o Sul, no sul do país; o Sudeste, incluindo Minas Gerais, rica em café, e o cinturão da cana-de-açúcar de São Paulo; o vasto Centro-Oeste, conhecido pelo Cerrado; e a fronteira em expansão do MATOPIBA, no Nordeste.
Só o Cerrado cobre aproximadamente a mesma área agrícola de toda a Argentina. Não existe uma única estratégia de agtech para o Brasil. Existem pelo menos quatro.
Todo mundo fala sobre o lado mais brilhante da agtech brasileira: as startups, os corredores de inovação, os números de investimento. Mas não é aí que está a verdadeira oportunidade, ou pelo menos não toda ela.
O Brasil tem vastas áreas de terras degradadas. Pastagens que foram sobrepastoreadas. Solos explorados intensamente sem o devido cuidado. Restaurar essas áreas por meio de práticas regenerativas é um trabalho pouco glamouroso. Nunca será um slide chamativo de conferência. Mas a escala do que é possível, se isso for feito da forma certa, é extraordinária.
Esta é a versão Thiago, do Brentford, da agricultura brasileira. Não é a atração principal, mas aquilo que, em silêncio, faz o trabalho que decide se todo o sistema realmente funciona. Exige paciência, conhecimento técnico e disposição para trabalhar em algo que nunca vai viralizar no LinkedIn. É exatamente por isso que, quando bem feito, os retornos são tão significativos.
A maioria dos comentaristas internacionais descreve a Embrapa como o órgão de pesquisa agropecuária do Brasil. É correto, mas subestima consideravelmente a instituição.
Nas décadas de 1970 e 1980, o Cerrado era considerado improdutivo. O solo era ácido demais, as chuvas eram sazonais demais, a logística era difícil demais. A Embrapa mapeou esse território, desenvolveu variedades adaptadas a ele e trabalhou com o banco nacional de desenvolvimento, o BNDES, para financiar os produtores dispostos a tentar. Ao longo de aproximadamente duas décadas, o Brasil passou de importador líquido de alimentos a maior exportador agrícola líquido do mundo. Cinquenta anos de pesquisa aplicada. Mais de 40 unidades especializadas. Milhares de pesquisadores.
E essa não é uma história restrita ao passado, nem ao solo brasileiro. Por meio de programas de cooperação internacional, como o Labex na Europa e nos Estados Unidos, e de parcerias de transferência de tecnologia na África e na Ásia, a Embrapa está moldando o futuro da agricultura tropical muito além das suas próprias fronteiras. Cultivos da bioeconomia amazônica, como o açaí. Genômica da pecuária tropical. Soja editada geneticamente. O trabalho que transformou o Cerrado também não era glamouroso na época. Raramente é.
Janaina Tanure lidera a área de Inovação e Transferência de Tecnologia na Embrapa Meio Ambiente, e ela é a razão pela qual consegui conhecer a Embrapa de verdade, não como um visitante em uma visita guiada, mas como alguém sentado nas salas onde as conversas reais acontecem. Como ela mesma diria, ela não tem um perfil típico da Embrapa: é determinada, conectada internacionalmente e focada em fazer a pesquisa sair dos artigos acadêmicos e chegar ao campo. Foi ela também quem organizou aquela visita à usina de cana-de-açúcar. A pessoa que muda a forma como você enxerga um mercado raramente é a mesma que está entregando folders em um estande de feira.
Já tive versões da mesma conversa muitas vezes, com empresas do Reino Unido, da Europa e da América do Norte. Elas entram no Brasil, montam uma equipe, colocam pessoas no país. Seis a doze meses depois, estão começando de novo, desta vez contratando um country manager brasileiro que realmente entende como o mercado funciona.
A relação que elas achavam que estavam construindo existia em um determinado nível da organização. A tomada de decisão estava em outro lugar completamente diferente.
A seleção brasileira está atualmente atravessando um debate real sobre se o técnico deve ser sempre brasileiro ou se alguém de fora pode trazer algo que o próprio sistema não conseguiu gerar internamente. Ancelotti talvez seja exatamente o que pode destravar a sexta Copa do Mundo, justamente por não ser formado dentro de casa.
As melhores histórias de entrada em mercado que já vi seguem a mesma lógica: raízes e relacionamentos locais, somados à capacidade e credibilidade externas. Nenhum dos dois, sozinho, é suficiente.
Escrevo isto do Acre e de Rondônia, dois estados na fronteira oeste da Amazônia que a maioria das pessoas que trabalha com agtech brasileira nunca visitou. Estou aqui por causa do nosso trabalho com soja regenerativa e desmatamento, financiado pela JFF, reunindo-me com produtores de soja e conduzindo workshops.
São estados onde a tensão entre o Brasil antigo e o novo é impossível de ignorar. Tradição e negócios, meio ambiente e progresso, lado a lado. A questão das terras degradadas aqui não é abstrata. É o trabalho real.
Essa é uma tensão que o futebol brasileiro sempre carregou também. O jogo bonito convivendo com as exigências de um torneio moderno, onde sistema e estrutura ganham troféus. Cinco Copas do Mundo e mais de vinte anos sem a sexta. O talento nunca foi o problema. O problema sempre esteve no sistema ao redor dele.
Juninho no Middlesbrough foi um vislumbre de algo que a maioria das pessoas ainda não estava pronta para levar a sério. A usina de cana-de-açúcar no estado de São Paulo, em dezembro de 2023, provocou a mesma sensação. É preciso ver para entender. Eu recomendaria encontrar uma forma de fazer isso.
Está pensando no Brasil como parte da sua estratégia internacional de agtech? A Embrapa é um bom ponto de partida para entender como o Brasil se vê por dentro. Fico feliz em conectar e conversar sobre o que aprendemos. Você me encontra em mark.jarman@agritierra.com
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